O Brasil ocupa a 104ª posição entre 180 países no Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional. Com pontuação de 36 em 100 em 2023.
Esse dado não é apenas sobre corrupção pública. É sobre o que acontece quando uma cultura aprende, ao longo de gerações, que as regras são flexíveis para quem sabe navegar.
O antropólogo Roberto DaMatta identificou no “jeitinho brasileiro” uma estratégia cultural de navegação em sistemas percebidos como injustos. Uma forma criativa de resolver o que a estrutura não resolve. E há algo genuinamente inventivo nisso.
Mas há também um custo sistêmico que raramente contabilizamos: quando a flexibilidade com normas se torna padrão cultural, ela migra para todos os domínios. Para os compromissos profissionais. Para os prazos. Para as respostas que não vêm. Para os não que viram silêncio.
Não se trata de condenar a cultura brasileira. Trata-se de reconhecer que o jeitinho nas pequenas relações cotidianas tem o mesmo DNA da corrupção nas grandes estruturas: a crença de que a palavra dada é opcional quando é inconveniente.
E os dados confirmam o impacto. Menos de 10% dos brasileiros acreditam que a maioria das pessoas é confiável. O custo disso aparece em cada contrato que precisa de mais cláusulas, em cada parceria que precisa de mais garantias, em cada equipe que precisa de mais controle.
A boa notícia é que há movimento. A Lei Anticorrupção de 2013, a expansão dos programas de integridade corporativa, o crescimento das Empresas B e da agenda ESG, o avanço de uma geração que exige coerência entre discurso e prática.
O Brasil que queremos construir começa na decisão individual de honrar a própria palavra. Todos os dias. Mesmo quando é difícil.
Especialmente quando é difícil.
Como você vê a relação do brasileiro com integridade nas relações cotidianas? Mudou nos últimos anos?




